Translate

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O Novo Homem

Arquivo pessoal


por Dagomir Marquezi


Muito bem, mulheres. Vocês queriam um “novo homem”? Conseguiram. Aqui estou, lavando louça, preparando o jantar enquanto minha mulher não chega da firma. Ela tem emprego fixo. Ganha mais que eu.


Quando ela chega em casa, eu ouço suas queixas sobre o trabalho e derramo lágrimas enquanto fatio a cebola. Como “novo homem”, sou compreensível, sensível e solícito. Dou a maior força à minha companheira. E se ela estiver na TPM recebo a tempestade de cobranças e mágoas passadas de cabeça baixa. O novo homem apoia a mulher mesmo em DRs sísmicas.


Como novo homem, sinto até culpa de não ter TPM. Pois a mulher que frita um homem na fervura de seus hormônios é vítima da natureza. Que é machista e poupa os homens desse desconforto mensal. Já o homem que berra com a mulher numa discussão é simplesmente... machista.


Ao contrário do que pode parecer, sou mais solidário às causas feministas que muitas militantes. Acho uma ferida profunda na alma brasileira nossa condescendência com a prostituição infantil e a pedofilia. Me dói ver tantas meninas do Afeganistão com a cara queimada por ácido por não terem sido suficientemente submissas aos seus maridos. Ou crianças africanas com o clitóris extirpado pelo fanatismo religioso. Acho tudo isso inaceitável.


Mas o que vejo ao redor é o “novo homem” sendo tratado a pauladas. Quase todos os dias fico sabendo de algum macho da espécie na situação 3D: desempregado, dependente e deprimido. Enquanto as mulheres estão escalando o mercado de trabalho com rapidez espantosa, os homens estão cada vez mais por baixo. De uns tempos pra cá, só lemos histórias de sucesso feminino: no Brasil, na Petrobras, no Facebook, no Google, no Yahoo...


As novelas, as séries - como a atual temporada de Game of Thrones - refletem isso muito bem. Suas vilãs são mulheres, suas heroínas também. Elas são inteligentes, decididas, espertas, sabem o que querem, e mandam. Os homens as obedecem. Viramos personagens idiotas de propaganda de cerveja. Nem conversamos mais entre nós. As mulheres dialogam em dezenas de mídias. Nas revistas e blogs masculinos, procuramos saber apenas como devemos nos comportar para ganhar mulheres.


Não que as mulheres sejam “superiores” aos homens. Mas nesse momento da História elas estão mais preparadas. Foram criadas para enfrentar a vida real, com os pés no chão. A minha geração de homens foi mimada por privilégios persistentes. Como o direito de não ter a menor noção de como se lava um banheiro.


Os homens perpetuam alguns erros ancestrais. Como o direito sagrado de nos agarrar a brinquedos (incluindo carrões) numa adolescência sem fim. É assim que as comédias (como o excelente Ted) nos retratam. E com razão. Queremos ter nossos ursinhos de conforto emocional pelo resto de nossas vidas. (Mas temos uma pequena vantagem com relação às mulheres: conseguimos rir com muito mais facilidade de nós mesmos).


Prevejo tempos cada vez mais difíceis para os homens. As mulheres estão mais focadas, combativas e disciplinadas. Traçam metas e as cumprem, enquanto decoramos a tabela do Brasileirão. De alguns anos para cá, conheci uma quantidade perturbadora de homens entrando em falência, dependentes de suas mulheres e sem forças para reagir. Sonhamos com o pote de ouro e acabamos com o insuportável peso do fracasso.


Como mudar isso? Em primeiro lugar, enterrando fundo um velho clichê pseudo freudiano. Como declarou a psicóloga Betty Milan à Folha de São Paulo, “é preciso desculpabilizar a mãe. Chegou a hora de homem e mulher dividirem as tarefas”. Isso inclui criar juntos os filhos corretamente para evitar novas gerações de meninos mimados e frágeis.


Por outro lado... Acho tolice qualquer ideia de “vingança feminina” pelos anos de opressão machista. Ficaram na poeira os anos da serie Mad Man, onde as mulheres eram secretárias de machões cafajestes e tinham por obrigação dar para eles depois do happy hour. Hoje já não têm mais nada a provar e nem precisam simbolizar mais nada. Estão ocupando o mercado de trabalho por puro merecimento. Não necessitam quotas protecionistas.


Os homens estão sim, numa fase ruim. Temos que sair da fossa. Devemos perdoar nossos pais e sermos perdoados por nossos filhos pelos erros cometidos. E parar com qualquer sentimento de culpa pela opressão masculina do passado.


Um mundo dominado e dirigido só por mulheres será mais pobre. Uma sociedade onde os homens choram pelos cantos não pode dar certo. Somos yin e yang, pão e recheio, corpo e alma. Nós, homens, temos que corrigir nossos erros, curar nosso orgulho ferido e propor uma nova parceria com as mulheres. Com a cabeça erguida e respeito redobrado por vocês.


Vai ser doloroso para nós. Mas necessário. E inclui limpar o banheiro.